Criado para tocar discos de vinil sem contacto físico, o gira-discos a laser ELP usa cinco feixes de laser e promete reprodução analógica sem desgaste, num raro encontro entre alta tecnologia e legado sonoro.
O essencial: ouvir vinil sem o desgastar
Em 2025, o ELP (Edison Laser Player) mantém um estatuto singular no áudio de alta-fidelidade: é o único gira-discos do mundo que lê vinil sem contacto físico. Ao substituir a agulha por lasers, elimina o desgaste progressivo dos discos e permite extrair som de zonas do sulco nunca tocadas.
O preço — cerca de 16 mil euros (ou mais, dependendo do modelo e opções) — coloca-o no território do hi-end. Ainda assim, para colecionadores, bibliotecas e estúdios de preservação, o ELP é visto como a solução definitiva para proteger gravações raras e insubstituíveis.
Como funciona o gira-discos a laser
O sistema recorre a cinco lasers independentes. Dois lasers vermelhos (670 nm) leem as paredes esquerda e direita do sulco, enquanto três lasers adicionais asseguram o posicionamento e o seguimento preciso.
Ao contrário da agulha — que exerce pressão mecânica — os lasers não têm massa e conseguem acompanhar deformações do disco, ajustando dinamicamente a profundidade de leitura.
O laser lê cerca de 10 microns abaixo da superfície, numa zona geralmente intacta. O resultado é a possibilidade de “recuperar” discos gastos que soam degradados em gira-discos tradicionais, incluindo vinil empenado ou irregular.
Importa sublinhar: não há conversão digital. A luz refletida é transformada diretamente em sinal elétrico por sensores foto-ópticos, mantendo um percurso 100% analógico. A resposta de frequência anunciada vai dos 10 Hz aos 25 kHz, com separação de canais superior à de muitos sistemas convencionais.
Uma história de 50 anos entre falências e perseverança
A origem do ELP remonta a 1972, quando o engenheiro norte-americano William K. Heine criou o protótipo “Laserphone”. A ideia ganhou notoriedade em 1977, com um artigo apresentado à Audio Engineering Society.
Nos anos 80, a Finial Technologies, liderada por Michael Stoddard, investiu mais de 20 milhões de dólares no desenvolvimento do conceito. A chegada do CD e o colapso do mercado de vinil ditaram a falência da empresa em 1989.
A viragem aconteceu no Japão. Sanju Chiba adquiriu as patentes através da CTI Japan, fundou a ELP Japan e investiu mais sete anos e cerca de 20 milhões de dólares a refinar a tecnologia. O primeiro modelo comercial surgiu em 1997.
Produção artesanal e modelos disponíveis
Desde então, a ELP produziu pouco mais de mil unidades — cerca de 40 por ano — todas montadas manualmente no Japão. Cada gira-discos exige aproximadamente 100 horas de trabalho e é feito por encomenda, com listas de espera de vários meses.
A gama atual inclui dois modelos: o LT-Basic, vocacionado para a reprodução de LPs a 33 e 45 rpm, e o LT-Master, que acrescenta a capacidade de leitura a 78 rpm, dirigida a arquivos históricos e colecionadores de discos de goma-laca, integrando ainda eletrónica mais rápida e avançada.
Ambos incluem um disco de calibração e uma máquina profissional de limpeza — um acessório essencial.
A exigência extrema: limpeza ou desastre sonoro
Aqui surge a principal limitação. Os lasers não distinguem música de poeira. Qualquer partícula é lida como sinal sonoro. Discos que parecem impecáveis noutros gira-discos podem soar mal no ELP se não estiverem meticulosamente limpos.
A lavagem com água e sistemas de limpeza profunda não é recomendação: é regra. Para muitos utilizadores, este requisito torna o ELP impraticável no uso quotidiano.
Som perfeito… mas polémico
A receção crítica divide opiniões. Michael Fremer, da Stereophile, elogia a precisão técnica, mas reconhece menor impacto dinâmico. Jonathan Valin, da The Absolute Sound, foi mais duro, descrevendo o som como correto, porém emocionalmente distante.
Em suma, o ELP privilegia a fidelidade absoluta à informação do sulco, mesmo que isso sacrifique parte do “carácter” mecânico que muitos associam ao vinil.
Preservação acima de tudo
Mais do que um produto para entusiastas ocasionais, o ELP encontrou o seu lugar em bibliotecas, arquivos sonoros e centros de restauro. Para estas instituições, a ausência de contacto físico é crucial para preservar gravações históricas, acetatos únicos e edições raras.
A ELP Corporation continua sediada em Saitama, no Japão, mantendo uma filosofia artesanal e um modelo de negócio de nicho. Tentativas de versões mais acessíveis nunca avançaram para produção em massa, por falta de viabilidade económica.
Um luxo com propósito
O gira-discos a laser ELP não pretende democratizar o vinil. Destina-se a quem já percorreu todo o caminho do áudio analógico e procura o limite final: reproduzir sem desgaste.
Por um valor semelhante, é possível comprar um sistema tradicional de topo. Mas todos eles desgastam os discos, audição após audição. O ELP oferece algo raro: a possibilidade de ouvir e preservar ao mesmo tempo. Num mundo dominado pelo streaming, é uma prova de que o futuro da música também pode passar pela perfeição paciente do passado.



