Bruce Springsteen pode estar velho e cansado. Mas, em Streets Of Minneapolis, está sobretudo zangado. Muito zangado.
Confesso que, quando soube que The Boss tinha uma nova canção, a propósito do que se está neste momento a passar nos EUA, pensei que teria simplesmente pegado na sua canção Streets of Philadelphia e alterado e adaptado a letra para refletir os acontecimentos atuais na cidade de Minneapolis.
Claro que subestimei Springsteen. Os eventos de Minneapolis não merecem algo low effort, mas sim uma canção completamente nova, criada a partir da frustração e da raiva que qualquer pessoa realmente de bem sente perante a lenta rápida transformação daquela que até há bem pouco tempo era uma democracia, em algo bem mais sinistro.
No teledisco vemos Bruce Springsteen no seu estúdio doméstico, sozinho com a sua guitarra acústica frente ao microfone (o resto dos instrumentos entra apenas 35 segundos depois), mas é um Springsteen longe do mesmo registo intimista que encontrámos em Nebraska (1982), e mais próximo de algumas das canções de protesto da guerra do Vietnam.
A força deste tema radica sobretudo na sua letra, mas é na interpretação de Springsteen, com uma mal reprimida fúria e frustração na voz, que Streets Of Minneapolis vai ficar para a posteridade como muito mais do que uma canção; ficará como um registo histórico de algo que nunca devia ter acontecido.
Não vale a pena tecer grandes prosas em torno de uma canção sobre a qual cada um de nós terá a oportunidade de interpretar à sua maneira. Mas que não haja dúvidas: nada como a música de um rocker nascido em 1949 para destilar o que a sociedade dos EUA está neste momento a sentir, perante a concretização de um processo de autoritarismo que parece capaz de fazer frente a todos e quaisquer checks and balances. Perante a força das armas, valha-nos o poder da música.
Em menos de 24 horas, o teledisco oficial tinha já 1,4 milhões de visualizações, e o "official audio" já ia com mais de 4 milhões.

