Em 17 de fevereiro de 1986, os Talk Talk lançaram The Colour of Spring, o terceiro álbum de estúdio que consolidou a sua transformação artística. Longe do rótulo New Romantic que ainda lhes era colado, o grupo liderado por Mark Hollis apresentou um disco mais orgânico, paciente e sofisticado — e, paradoxalmente, um dos maiores sucessos comerciais da sua carreira.
Do synth-pop à ambição sonora
Em meados dos anos 80, quem ainda via os Talk Talk como uma banda New Romantic simplesmente não estava a prestar atenção. Após dois álbuns — The Party’s Over (1982) e It’s My Life (1984) — o grupo já se afastara do synth-pop dominante. The Colour of Spring concluiu discretamente essa transição.
Onde antes predominavam teclados programados e refrões imediatos, surgem agora arranjos mais lentos, atmosféricos e deliberadamente pouco óbvios para a rádio diurna da época. Ainda assim, a banda continuou a produzir êxitos — mas nos seus próprios termos.
A pressão inicial da EMI para os alinhar com nomes como Duran Duran e Spandau Ballet deixou marcas na perceção pública. Mark Hollis rejeitou sempre essa narrativa, insistindo que a única prioridade do grupo era escrever canções cada vez melhores.
Um novo método de gravação
Escrito por Hollis e pelo produtor Tim Friese-Greene, o álbum foi gravado ao longo de 1985 nos estúdios Battery e Videosonics, em Londres. A mudança tecnológica foi decisiva: houve menos sintetizadores dominantes, mais instrumentos acústicos e elétricos, e arranjos construídos com uma paciência quase clássica.
Hollis chegou a declarar à Electronics & Music Maker que “odiava sintetizadores”, enquanto Friese-Greene descreveu o MIDI como “uma palavra de quatro letras”. A dupla mergulhou na música de Erik Satie, Claude Debussy e Béla Bartók — influência audível não em citações diretas, mas na respiração dos arranjos e no uso do espaço.
Luxo sonoro e elenco de luxo
Apesar da viragem artística, The Colour of Spring soa surpreendentemente rico. Friese-Greene e o engenheiro Dennis Weinrich construíram as faixas sobre bases rítmicas ao vivo, convidando músicos de peso: o contrabaixo de Danny Thompson, o órgão Hammond de Steve Winwood, as guitarras de Robbie McIntosh, a harmónica de Mark Feltham, o sax soprano de David Roach, a harpa de Gaynor Sadler e as vozes dos Ambrosian Singers. Os sintetizadores permanecem, mas apenas como discretos toques de cor.
Faixa a faixa: o pop reinventado
“Happiness Is Easy” abre o jogo
A abertura estabelece imediatamente novas regras. Sobre a bateria solta de Lee Harris e o contrabaixo de Thompson, um coro infantil canta sobre fé e violência. O arranjo evita soluções óbvias, criando um ambiente simultaneamente sereno e inquieto.
“I Don’t Believe in You” aprofunda a introspeção
O órgão de Winwood e as guitarras entrelaçadas criam uma textura densa, enquanto a voz de Hollis surge propositadamente baixa na mistura, reforçando a ideia de banda como organismo coletivo.
“Life’s What You Make It”, o grande sucesso
O terceiro tema pagou as contas. Inspirado ritmicamente em Running Up That Hill, de Kate Bush, tornou-se um êxito internacional, alcançando o 16.º lugar no Reino Unido, presença nas tabelas europeias e entrada na Billboard Hot 100. Curiosamente, é um single pop sem refrão tradicional — apenas um riff insistente e hipnótico.
“April 5th”, o coração do disco
Aqui tudo abranda quase até parar. A crítica associou o título à mulher de Hollis, Felicity, vendo na canção uma carta de amor discreta. Musicalmente, antecipa claramente o minimalismo futuro da banda.
O lado B e a expansão do som
“Living in Another World”
Parte de uma harmonia modal inspirada em Miles Davis, mas revestida com cores pop dos anos 80. Foi o segundo single e entrou no Top 50 britânico.
“Give It Up”
À superfície, parece a concessão radiofónica do álbum. Na prática, mantém a recusa da banda em oferecer soluções fáceis.
“Chameleon Day”
Minimalista e atmosférica, aproxima-se mais da música clássica moderna do que do pop das tabelas.
“Time It’s Time”
O fecho cresce lentamente até à entrada dos Ambrosian Singers. Não é grandioso à maneira de Queen, mas sim uma onda tardia de energia que se dissipa com elegância.
Estrutura radical, sucesso inesperado
Friese-Greene explicou na época que as canções são longas “não por terem muitos versos e refrões, mas porque cada secção respira”. Essa flexibilidade estrutural era invulgar para uma banda ainda a lançar singles de 7 polegadas pela EMI.
O risco compensou: o álbum alcançou o 8.º lugar na tabela de álbuns do Reino Unido, permaneceu 21 semanas no top, chegou ao 1.º lugar na Holanda, atingiu o 58.º posto na Billboard 200 e vendeu mais de 2 milhões de cópias. Foi também a última fase em que os Talk Talk funcionaram como uma banda de digressão convencional.
Entre o passado pop e o futuro experimental
A crítica costuma tratar The Colour of Spring como uma ponte para os álbuns seguintes — Spirit of Eden (1988) e Laughing Stock (1991). Mas essa leitura é redutora. O disco funciona plenamente por si: mantém groove e acessibilidade, expande a paleta sonora e antecipa o pós-rock sem abandonar o pop.
Quarenta anos depois, ocupa um lugar singular: por vezes ofuscado pelo mito dos trabalhos posteriores, mas frequentemente o mais ouvido por muitos fãs.
Legado
Com apenas oito faixas e a voz de Hollis semi-enterrada na mistura, The Colour of Spring soa menos a etapa intermédia e mais a um mundo autónomo. Foi o momento em que os Talk Talk provaram que podiam moldar o pop mainstream à sua vontade — antes de, pouco depois, abandonarem completamente o jogo.



