Radiant Acoustics Clarity 4.2: Pequenas colunas, grandes ambições

Fernando Marques
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Há muito que o mercado das colunas compactas deixou de ser sinónimo de compromisso. Ainda assim, é raro encontrar um modelo que consiga desafiar de forma tão convincente os limites impostos pelo volume da caixa como as novas Radiant Acoustics Clarity 4.2. À primeira vista, nada faz prever que uma coluna com apenas 26 centímetros de altura seja capaz de produzir graves com extensão próxima dos 40 Hz, mantendo simultaneamente baixos níveis de distorção e uma transparência pouco comum nesta categoria.


Mas também é verdade que a Radiant Acoustics dificilmente poderia ser considerada uma estreante convencional. Apesar de a marca dinamarquesa ter apenas pouco mais de um ano de existência, por detrás dela está Peter Lyngdorf, uma das figuras mais influentes da história recente da alta-fidelidade europeia.


Ao longo de quatro décadas, Lyngdorf fundou a HiFi Klubben, criou a DALI, adquiriu a Snell Acoustics, esteve à frente da NAD e da Gryphon, lançou a TacT Audio — responsável pelo primeiro amplificador totalmente digital produzido em série — e acabaria por fundar a Lyngdorf Audio, cuja colaboração com a Steinway & Sons deu origem a alguns dos sistemas de reprodução sonora mais exclusivos do mercado.


Perante este percurso, seria difícil esperar que a Radiant Acoustics surgisse apenas como mais uma marca de colunas.


Engenharia antes do marketing


Embora a Radiant Acoustics revele uma comunicação particularmente eficaz, a verdadeira história está na engenharia.


As Clarity 4.2 representam uma síntese de três empresas pertencentes ao universo Lyngdorf: a HiFi Klubben, responsável pela infraestrutura comercial; a Nordic Hi-Fi, que gere o modelo de venda direta ao consumidor; e, sobretudo, a Purifi, provavelmente uma das empresas de engenharia eletroacústica mais respeitadas da atualidade.


Fundada por Bruno Putzeys, Lars Risbo e Peter Lyngdorf, a Purifi conquistou reputação internacional pelos seus amplificadores Eigentakt e pelos altifalantes desenvolvidos com uma obsessão pouco comum pela redução da distorção. Muito do conhecimento acumulado ao longo dos últimos anos encontra-se agora integrado nas Clarity 4.2.


A filosofia da marca é simples: eliminar todas as fontes de distorção que normalmente passam despercebidas durante o desenvolvimento de um altifalante convencional.


Entre elas encontram-se a Force Factor Modulation (FFM), responsável pela variação da força motriz da bobina durante o seu movimento, e a Surround Radiation Distortion (SRD), provocada pela própria suspensão do altifalante, cuja radiação sonora pode introduzir distorção de segunda ordem e intermodulação.


Para combater estes fenómenos, a Purifi desenvolveu duas tecnologias proprietárias: o sistema PureDrive e a suspensão NeutralSurround, cuja geometria orgânica — quase caótica à vista desarmada — resulta de otimização matemática e não de qualquer preocupação estética.


O resultado é um dos altifalantes de médios/graves mais sofisticados atualmente disponíveis na indústria.


Muito mais do que uma pequena coluna


Apesar das dimensões extremamente compactas — 260 × 164 mm — a Clarity 4.2 integra quatro elementos acústicos.


Na frente encontra-se o único altifalante ativo de médios/graves de 100 mm, acompanhado por um tweeter AMT desenvolvido especificamente pela DALI para este projeto e integrado num amplo guia de ondas horizontal.



Nas laterais surgem dois radiadores passivos (ABR), solução bastante mais dispendiosa do que um simples sistema bass-reflex, mas que permite obter maior extensão dos graves sem os problemas normalmente associados ao ruído de turbulência das portas reflex.


O painel frontal, maquinado a partir de um único bloco de alumínio, transmite imediatamente uma sensação de robustez pouco habitual nesta gama de preço.


Também merece referência a opção da Radiant por eliminar os tradicionais terminais de aperto. As Clarity 4.2 aceitam exclusivamente fichas banana, uma decisão motivada tanto por razões mecânicas como pela redução de potenciais falhas de contacto.




A instalação continua a fazer parte da equação


Tal como acontece com qualquer coluna de elevada resolução, o posicionamento influencia significativamente o resultado final.


A dispersão vertical relativamente estreita do tweeter AMT exige que este fique aproximadamente à altura dos ouvidos. Quando tal não é possível, uma ligeira inclinação para trás permite recuperar o equilíbrio tonal.


Curiosamente, estas pequenas Radiant toleram bastante bem a proximidade da parede traseira, funcionando confortavelmente entre 10 e 30 centímetros de distância, o que as torna particularmente interessantes para salas de dimensão reduzida ou integração em móveis de televisão.


A própria Radiant disponibiliza suportes dedicados capazes de introduzir até quatro graus de inclinação, embora esteja igualmente previsto um suporte de secretária com a mesma filosofia.



Impressões de audição


As primeiras notas bastam para desmontar qualquer preconceito associado ao tamanho das Clarity 4.2.


O que mais impressiona não é apenas a quantidade de graves, mas sobretudo a forma como estes são reproduzidos. Existe profundidade, velocidade e controlo, mas nunca excesso.


“Poison Lips”, de Vitalic, foi suficiente para provocar aquele momento de incredulidade que todos os audiófilos conhecem: olhar instintivamente para trás das colunas à procura de um subwoofer escondido.


A extensão nas baixas frequências parece desafiar as leis da física sem recorrer a truques de afinação que sacrifiquem a definição.


Mas talvez a maior virtude destas Radiant seja precisamente aquilo que Peter Lyngdorf destaca na primeira página do manual do utilizador: a ausência de distorção. Ou, mais corretamente, a ausência daquela assinatura mecânica que muitas pequenas colunas deixam transparecer quando são solicitadas.



Há uma serenidade na reprodução que alguns poderão interpretar inicialmente como contenção. Na realidade, trata-se simplesmente de uma apresentação extraordinariamente limpa. Essa característica torna-se particularmente evidente em gravações acústicas.


Em Getz at the Gate, Stan Getz surge inserido num palco sonoro convincente, com excelente separação instrumental e uma sensação de espaço que transcende claramente as dimensões físicas das caixas.


Já “Ausência”, do álbum Idilio, de Marina de La Riva, evidencia uma reprodução vocal de enorme naturalidade. A voz mantém textura, corpo e articulação, enquanto o piano se desenvolve numa imagem ampla e estável.


A verdadeira prova de fogo chegou, contudo, com “Limit To Your Love”, de James Blake. As profundas notas sintetizadas desta gravação costumam denunciar rapidamente as limitações da maioria das colunas compactas.


Nas Clarity 4.2, os graves surgem completos, fluidos e perfeitamente integrados no restante espectro. Em vez daquele efeito de compressão ou “liga-desliga” frequentemente observado em sistemas pequenos, existe continuidade, textura e excelente controlo.


Amplificação: potência recomendada


Durante a entrevista que fiz a Peter Lyngdorf para o podcast Música & Som, tive oportunidade de lhe revelar, já com os microfones desligados, que sou um feliz proprietário de um amplificador TacT Millennium. A reação dele foi de genuína surpresa. Foi precisamente este histórico amplificador digital, capaz de debitar 150 W por canal a 8 ohms, que utilizei em grande parte das audições das Clarity 4.2. 




Para complementar a avaliação recorri também ao Pro-Ject Stereo Box RS, equipado com fonte de alimentação linear externa e uma potência de 250 W por canal a 4 ohms, permitindo confirmar que estas pequenas colunas beneficiam claramente de amplificação musculada.


Em ambos os casos ficou evidente que as Clarity 4.2 apreciam corrente abundante.

Embora mantenham equilíbrio tonal a volumes moderados, é quando o amplificador dispõe de reservas dinâmicas suficientes que estas pequenas colunas revelam toda a autoridade dos graves, a capacidade dinâmica e a abertura da imagem sonora.


Veredicto


As Radiant Acoustics Clarity 4.2 representam muito mais do que uma nova coluna compacta.


São, na prática, a materialização de décadas de investigação conduzida por algumas das figuras mais influentes da engenharia eletroacústica contemporânea.


A combinação entre a tecnologia Purifi, o tweeter AMT desenvolvido pela DALI e a visão de Peter Lyngdorf resulta num produto que consegue aliar uma apresentação extremamente transparente a graves surpreendentemente profundos, mantendo uma baixa distorção mesmo quando sujeito a níveis elevados de pressão sonora.


Não são colunas destinadas a impressionar pelo excesso ou pela exuberância tonal. Impressionam precisamente pelo contrário: pela ausência de artefactos, pela neutralidade e pela facilidade com que desaparecem da sala para deixar apenas a música.


Num segmento onde abundam excelentes propostas, as Clarity 4.2 afirmam-se como uma das mais sérias candidatas ao título de referência entre as colunas compactas de alta-fidelidade da sua geração.


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