Num sistema de áudio digital, a qualidade da rede é cada vez mais uma preocupação para os audiófilos. A Sensis Audio desenvolveu duas soluções de isolamento e filtragem para Ethernet, denominadas Ultra e Supreme, que prometem reduzir o ruído de alta frequência e melhorar a estabilidade temporal do sinal.
Ao contrário de uma fonte física tradicional, como um leitor de CD ou um gira-discos, o streaming depende de uma infraestrutura de rede partilhada. O sinal proveniente da Internet atravessa routers, switches e cabos Ethernet antes de chegar ao streamer, podendo transportar ruído elétrico e interferências de radiofrequência.
É neste ponto que a Sensis Audio intervém. A empresa portuguesa desenvolveu uma arquitectura baseada no isolamento elétrico e na filtragem do ruído, procurando impedir que as interferências presentes na rede cheguem ao streamer e, posteriormente, ao DAC.
“A nossa solução desconstrói o sinal de rede que chega a nossa casa, que vem cheio de jitter, ruído e interferências, e volta a construí-lo de forma limpa. Quando esse sinal chega ao streamer, não transporta esse ruído e não contamina nem o streamer nem o DAC”, explica Luís Gabriel, um dos sócios fundadores da Sensis Audio.
A empresa chegou a esta solução depois de testar diferentes switches e routers destinados ao mercado audiófilo, incluindo equipamentos de preço elevado. Segundo a Sensis Audio, os resultados obtidos não correspondiam às expectativas em termos de fluidez, naturalidade e textura sonora, o que levou ao desenvolvimento de circuitos próprios.
A solução assenta em duas arquitecturas. Uma utiliza ligações RJ45 e SFP através dos conversores EB-X 1.1, enquanto a versão mais sofisticada recorre ao EB-X 2.1, com duas portas SFP e relógio interno OCXO/PLL.
A utilização de SFP apresenta ainda uma vantagem prática: o transceptor é modular e pode ser substituído sem necessidade de trocar o equipamento de rede. Para um sistema dedicado ao áudio, esta arquitectura permite, por exemplo, utilizar um switch com portas SFP e seleccionar módulos de cobre de acordo com as necessidades da instalação.
Sensis Audio Ultra
A solução Ultra que testámos é constituída por dois conversores EB-X 1.1, cada um equipado com uma porta SFP de 1,25 Gbps e uma porta RJ45 compatível com velocidades entre 10 e 1250 Mbps.
Os conversores apresentam uma construção em alumínio maquinado por CNC de cinco eixos, com acabamento anodizado, e foram concebidos para proporcionar isolamento relativamente a interferências RFI e EMI. A alimentação é externa, de 5 V.
O conjunto inclui ainda cabos Ethernet RJ45 UR-X CAT8.1, com condutores em cobre OCC banhado a prata e dupla blindagem, assim como cabos SFP UH-X DAC 10G, compatíveis com velocidades entre 1 e 10 Gbps.
Um dos elementos mais interessantes do conjunto é o bloco de alimentação DC-X, equipado com supercondensadores. Foi concebido para reduzir o ruído da alimentação e funcionar como um reservatório capaz de fornecer rapidamente energia em resposta a variações de consumo.
O preço do kit Ultra testado é de 1550 euros.
A alimentação do router faz a diferença
No nosso sistema de referência, o streaming já beneficiava da utilização de um filtro de rede EAhibrid EAL 2000. Por esse motivo, a comparação com a solução Sensis Audio revelou-se particularmente exigente.
A maior diferença da configuração Ultra surgiu, precisamente, com a utilização do bloco de alimentação com supercondensadores no router.
“Os supercondensadores têm as vantagens das baterias, mas com uma grande diferença: funcionam como um depósito de energia e estão aptos a responder a solicitações rápidas de energia. Os routers, por exemplo, têm grandes oscilações no consumo. As pessoas pensam que um router é um aparelho simples em termos energéticos, mas não é. É extremamente complexo”, explica David Azevedo, o outro sócio fundador da Sensis Audio.
Ligado entre um router Huawei e um streamer Eversolo DMP-6 ME, o sistema Ultra produziu uma alteração perceptível na apresentação musical.
Em “This Is Who I Am”, de Celeste, o piano ganhou corpo e foco, com maior percepção da riqueza harmónica e das ressonâncias. O decaimento das notas pareceu prolongar-se de forma mais natural no espaço, contribuindo para uma maior sensação de presença.
Em “Love Is Blindness”, na interpretação de Jack White, a bateria apresentou maior definição, enquanto a guitarra e a voz adquiriram uma articulação mais evidente.
Não se trata, neste caso, de uma alteração radical da assinatura sonora do sistema, mas antes de uma melhoria subtil na organização e limpeza da apresentação musical.
EB-X 2.1: a proposta Supreme
A versão Supreme eleva consideravelmente a fasquia, tanto em termos técnicos como de preço.
O elemento central é o conversor/bridge EB-X 2.1, com duas portas SFP de 1,25 Gbps, uma porta RJ45 até 1250 Mbps e entrada BNC para um relógio externo de 10 MHz.
O equipamento utiliza um relógio OCXO associado a PLL, condensadores Nichicon de especificação audio-grade, fonte de alimentação linear Talema de baixo ruído e reguladores de tensão de elevada precisão.
A entrada de master clock permite ainda sincronizar o equipamento com uma referência externa de 10 MHz, utilizando uma onda quadrada CMOS ou sinusoidal, com impedâncias de 50 ou 75 ohms.
O chassis de alumínio mede 240 x 60 x 183 mm e pesa 2,5 kg. A alimentação é interna e pode funcionar a 110 ou 220 V.
Nesta configuração, a Sensis Audio recorre a cabos ainda mais ambiciosos. O RJ45 UR-X utiliza condutores de prata sólida com 99,998% de pureza, dupla blindagem, conectores Telegärtner CAT8.1 banhados a ouro e tratamento criogénico a -196 ºC. O cabo SFP UH-X combina prata e cobre.
O conjunto inclui também o bloco de alimentação DC-X Silver, com cablagem e pontos de soldadura em prata e supercondensadores para 12 V.
O preço do kit Supreme testado ascende a 7499 euros.
Supreme: um palco sonoro mais amplo
Foi, contudo, a versão Supreme que produziu a alteração mais evidente no nosso sistema.
A primeira sensação foi a de um palco sonoro mais largo e profundo, acompanhado por uma redução adicional do ruído de fundo. Os espaços entre os instrumentos pareceram mais silenciosos, permitindo uma melhor percepção das relações entre as diferentes fontes sonoras.
Em “This Is Who I Am”, de Celeste, o piano surgiu ligeiramente mais recuado, com ataques menos incisivos e decaimentos mais abertos. A apresentação ganhou elegância e refinamento, com uma maior sensação de espaço em redor do instrumento.
Em “Strange Fruit”, do álbum New Moon Daughter, de Cassandra Wilson, a voz grave e densa da cantora surgiu com grande definição, enquanto o dedilhar de Lonnie Plaxico no contrabaixo beneficiou de uma apresentação particularmente limpa. A separação entre os elementos da gravação tornou-se mais evidente, sem perder a coerência do conjunto.
É precisamente neste tipo de gravações, onde a ambiência, os microdetalhes e os decaimentos desempenham um papel importante, que as diferenças se tornam mais fáceis de identificar.
Também há efeitos na imagem
Apesar de o desenvolvimento estar essencialmente orientado para áudio, as soluções Sensis Audio também foram testadas com vídeo.
Com uma Apple TV ligada a um televisor Hisense com painel LED, observámos cores mais vivas, negros mais profundos e uma percepção superior de definição e contraste.
Neste caso, não encontrámos diferenças significativas entre as versões Ultra e Supreme. A alteração foi, contudo, perceptível mesmo com a solução Ultra, o que sugere que a redução do ruído na rede pode ter efeitos que ultrapassam a reprodução de música.
Veredicto
A Sensis Audio parte de uma premissa relativamente simples: reduzir a quantidade de ruído e interferência que acompanha o sinal de rede até ao equipamento de reprodução. A implementação, contudo, é bastante mais complexa e envolve isolamento, filtragem, alimentação e, no caso do EB-X 2.1, uma arquitectura de relógio de elevada precisão.
No nosso sistema, a solução Ultra proporcionou melhorias audíveis, sobretudo através do bloco de alimentação com supercondensadores aplicado ao router. A versão Supreme foi mais longe, com alterações mais evidentes na dimensão do palco sonoro, silêncio de fundo, separação e refinamento.
Naturalmente, os resultados de um equipamento desta natureza dependerão fortemente da configuração de cada sistema, da qualidade do streamer, da alimentação e da infraestrutura de rede já existente. Num sistema de elevada resolução, onde pequenas alterações podem ser facilmente identificadas, as duas soluções demonstraram potencial para optimizar a reprodução de streaming.
O principal problema está, como seria expectável, no investimento. Entre os 1550 euros do kit Ultra e os 7499 euros do Supreme, estamos perante soluções dirigidas sobretudo a sistemas de alta-fidelidade de gama elevada. A diferença de preço é substancial, mas com a política da Sensis Audio de poder testar os equipamentos durante 30 dias, o risco é reduzido. Como nos revelou Luís Gabriel, a empresa já realizou várias centenas de vendas em todo o mundo, contando com clientes desde a Austrália até aos Estados Unidos. “Até hoje, não tivemos uma única devolução”, sublinha.
Ainda assim, a Supreme demonstrou que a Sensis Audio não se limitou a acrescentar mais um filtro à cadeia de streaming. A empresa desenvolveu uma solução global que combina isolamento de rede, alimentação e controlo temporal do sinal, procurando retirar da equação uma das variáveis mais difíceis de controlar num sistema de áudio digital: o ruído.














