Concerto gratuito: Miles Davis – Ao Vivo em La Villette

Fernando Marques
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A atuação realizada em 1991, «Miles Davis – Ao Vivo em La Villette 1991» regista um dos últimos períodos da carreira do lendário trompetista norte-americano, reunindo jazz, fusão e eletrónica num alinhamento marcado por clássicos como «Human Nature» e «All Blues».


«Miles Davis – Ao Vivo em La Villette 1991» documenta uma atuação realizada no festival Jazz à La Villette, em Paris, durante uma fase particularmente experimental da carreira do músico. Miles Davis encontrava-se então nos últimos anos da sua vida e continuava a procurar novas linguagens, aproximando o jazz de sonoridades elétricas, funk, rock e música popular.


A formação apresentada no registo é particularmente extensa e revela a dimensão coletiva do espetáculo. Além de Davis no trompete e teclados, o alinhamento inclui Bill Evans e Kenny Garrett nos saxofones, juntamente com nomes de enorme importância na história do jazz, como Wayne Shorter, Chick Corea, Joe Zawinul, Herbie Hancock, John McLaughlin e John Scofield.


A presença de tantos músicos associados a diferentes períodos do jazz de vanguarda reforça a importância histórica deste concerto. Muitos deles trabalharam diretamente com Miles Davis ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, contribuindo para algumas das mais profundas transformações estilísticas do género.


Do jazz acústico à eletrónica

O alinhamento percorre diferentes fases do repertório de Davis. «Human Nature», originalmente popularizada por Michael Jackson, representa a aproximação do trompetista à música pop, enquanto «All Blues» recupera uma das composições emblemáticas de «Kind of Blue», álbum de 1959 que se tornou uma das obras fundamentais da história do jazz.


Já «In a Silent Way» e «It’s About That Time» remetem para o período elétrico de Miles Davis e para a revolução musical iniciada no final dos anos 1960. «Watermelon Man», de Herbie Hancock, e «Jean Pierre» completam um alinhamento que atravessa diferentes momentos da carreira do trompetista.


O resultado é um concerto que não procura simplesmente revisitar o passado. Pelo contrário, apresenta um Miles Davis ainda interessado em desconstruir formatos e em combinar instrumentos acústicos e elétricos, numa abordagem que antecipou várias das fusões entre jazz, rock, funk e música eletrónica que se tornariam mais comuns nas décadas seguintes.


Uma formação de peso

A lista de músicos é, por si só, um dos principais atrativos do lançamento. Nos saxofones surgem Bill Evans e Kenny Garrett, acompanhados por Jackie McLean, Wayne Shorter e Steve Grossman. Chick Corea, Joe Zawinul, Deron Johnson e Herbie Hancock asseguram diferentes funções nos teclados, enquanto John McLaughlin e John Scofield acrescentam as guitarras elétricas.


Na secção rítmica aparecem Joe «Foley» McCreary, Dave Holland, Darryl Jones e Richard Patterson nos baixos, acompanhados pelas baterias de Al Foster e Ricky Wellman.


É uma formação que reúne músicos ligados a diferentes gerações e correntes do jazz, tornando o concerto num verdadeiro encontro entre algumas das figuras que ajudaram a redefinir o género na segunda metade do século XX.


Um dos últimos capítulos

Nascido em 1926, Miles Davis morreu em setembro de 1991, poucos meses depois desta atuação. O concerto na La Villette pertence, por isso, ao período final de uma carreira que se estendeu por mais de quatro décadas e que incluiu obras fundamentais como «Kind of Blue», «Bitches Brew», «In a Silent Way» e «On the Corner».


Mais do que um simples documento de arquivo, «Ao Vivo na La Villette 1991» permite acompanhar um músico que, até ao fim, recusou ficar preso às fórmulas que lhe tinham garantido um lugar na história. O alinhamento demonstra precisamente essa inquietação: clássicos do jazz convivem com versões de temas contemporâneos e com uma sonoridade elétrica construída por uma formação invulgarmente numerosa.


Alinhamento

O concerto inclui seis temas: «Human Nature», «All Blues», «In a Silent Way», «It’s About That Time», «Watermelon Man» e «Jean Pierre». Uma seleção que resume, em pouco mais de uma hora de música, várias das principais transformações artísticas protagonizadas por Miles Davis ao longo da sua carreira.




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