Musical Fidelity LS3/5A: as colunas que conquistam gerações de audiófilos

Fernando Marques
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Nascidas nos anos 70 para responder às exigências da BBC, as LS3/5A tornaram-se uma das colunas mais emblemáticas da história do Hi-Fi. A Musical Fidelity recupera a receita original numa edição de construção cuidada, que mantém intacto o carácter sonoro que conquistou gerações de audiófilos.


À primeira vista, as Musical Fidelity LS3/5A parecem contrariar quase tudo aquilo que atualmente se espera de uma coluna de alta-fidelidade. Têm apenas 30,5 centímetros de altura, um woofer de 11 cm, sensibilidade de 82,5 dB e uma resposta em frequência limitada aos 80 Hz-20 kHz. A impedância de 15 ohms também está longe dos valores mais comuns no mercado atual.


E há ainda o preço: cerca de 2500 euros pelo par. Números que podem levantar dúvidas sobre a pertinência de uma conceção com raízes nos anos 70. Contudo, basta conhecer a história das LS3/5A para perceber por que razão continuam a despertar tanto interesse entre os aficionados do áudio.


Desenvolvida originalmente pela Rogers a partir de especificações e componentes associados à BBC, as LS3/5A foram concebidas como um pequeno monitor destinado às necessidades de monitorização em radiotelevisão. O objetivo não era produzir graves profundos nem elevados níveis de pressão sonora, mas oferecer uma reprodução extremamente inteligível e consistente num formato compacto.


Foi precisamente essa abordagem que transformou a ferramenta profissional numa referência do Hi-Fi.



Uma reprodução fiel ao conceito original

A Musical Fidelity procurou manter-se o mais próxima possível da versão original de 1976, incluindo a impedância de 15 ohms. A construção é igualmente inspirada na receita histórica, mas recorre a alguns materiais e processos contemporâneos.


A caixa utiliza painéis de contraplacado de bétula com apenas 12 mm de espessura, revestidos a pau-rosa, e travessas de madeira maciça. No interior encontram-se placas betuminosas e espuma sintética destinada ao amortecimento das vibrações. A montagem é feita com parafusos e inserções metálicas, revelando um nível de execução particularmente elevado.


O woofer de 11 cm utiliza um cone de material plástico, associado a um chassis em chapa estampada e a um potente motor de ferrite. Está montado pela parte traseira do painel frontal e trabalha numa caixa fechada, sem recurso a uma abertura bass-reflex.


No topo encontra-se um tweeter de cúpula têxtil de 19 mm, também com motor de ferrite. A moldura de feltro ajuda a controlar as reflexões, enquanto a pequena grelha de proteção e os cabos visíveis da bobina contribuem para o aspeto característico das LS3/5A.


Uma das diferenças face ao desenho original está na traseira, que deixou de ser desmontável. O painel frontal pode, por seu lado, ser removido para permitir a instalação da tradicional grelha em tecido, presa por velcro.



O segredo está na afinação 

As especificações explicam parte do carácter das LS3/5A, mas não justificam totalmente a reputação que conquistou. Com uma sensibilidade de apenas 82,5 dB, estas colunas precisam de mais potência do amplificador para atingir níveis de audição semelhantes aos de muitas alternativas modernas.


Também não foram concebidas para produzir graves profundos ou elevados níveis de pressão sonora. A resposta anunciada começa nos 80 Hz, o que limita naturalmente a reprodução das frequências mais baixas.


É, porém, precisamente aqui que a experiência de audição se torna interessante. Apesar das limitações objetivas, as Musical Fidelity LS3/5A conseguem transmitir uma sensação de corpo e calor superior àquela que os números poderiam fazer esperar.


Os graves apresentam-se articulados e relativamente generosos, permitindo acompanhar com clareza instrumentos como o contrabaixo ou o baixo elétrico. Os agudos possuem alguma luminosidade, enquanto a região média beneficia de uma presença particularmente convincente.


As vozes são um dos pontos fortes. Destacam-se claramente da instrumentação e apresentam uma reprodução natural, detalhada e envolvente. Midnight Sugar, do TSUYOSHI YAMAMOTO TRIO, é um dos álbuns a que recorremos frequentemente para avaliar componentes de áudio. Gravado a 1 de março de 1974, nos estúdios AOI, em Tóquio, num 3M S-79 de 16 canais e misturado numa mesa Philips MM-II, mantém uma qualidade sonora impressionante. A gravação, monitorizada com colunas Altec 604E, destaca-se pela limpeza, dinâmica e realismo. Na reedição em vinil da Warner Music Mastering, editada pela Sony Music Japan, as pequenas Musical Fidelity LS3/5A surpreenderam pela capacidade de reproduzir o contrabaixo com enorme naturalidade e presença, enquanto o piano revela rapidez e precisão. Em «I’m a Fool to Want You», distinguem-se exemplarmente a dinâmica, espacialidade e melancolia da gravação, captada apenas com um par de microfones Neumann M-49 C. Já em «Tenderly», do álbum Ella and Louis, de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, destacaram-se a naturalidade e o contraste entre a voz aveludada de Ella Fitzgerald e a textura mais áspera de Armstrong. O trompete do músico revelou igualmente uma excelente articulação, com um nível de realismo e detalhe particularmente convincente. O resultado não sendo absolutamente neutro, foi extremamente harmonioso e musical. 



Um palco sonoro surpreendentemente amplo

Outro dos argumentos das LS3/5A está na apresentação espacial. Embora tenham sido concebidas para audição de proximidade e para utilização como monitor compacto, a Musical Fidelity consegue criar uma imagem estereofónica de dimensões consideráveis.


O palco sonoro estende-se para além dos limites físicos das caixas, com os elementos laterais a adquirirem uma presença particularmente convincente. A profundidade não é o seu ponto mais forte, mas a largura e a capacidade de posicionar vozes e instrumentos contribuem para uma excelente legibilidade.


É uma característica que ajuda a explicar por que razão estas pequenas colunas continuam a ter tantos seguidores, mesmo numa época dominada por modelos de grandes dimensões e sistemas capazes de reproduzir frequências extremamente baixas.


Uma família de modelos que continua viva

As LS3/5A não ficaram confinadas à produção original. Ao longo das décadas, várias marcas desenvolveram as suas próprias interpretações ou derivados do conceito. A Rogers continua associada ao modelo original, enquanto a Stirling Broadcast também comercializa versões da coluna.


A Falcon Acoustics chegou igualmente a disponibilizar as LS3/5A em kit, permitindo aos entusiastas construir a sua própria versão. Outros fabricantes seguiram princípios semelhantes, dando origem a modelos como a Harbeth P3ESR, a ProAc Tablette 10 e a Spendor Classic 4/5.


Esta longevidade é particularmente reveladora. Mais de meio século depois da sua criação, o conceito continua a ser suficientemente relevante para justificar novas interpretações.




Uma peça de engenharia que sobreviveu ao tempo

As Musical Fidelity LS3/5A não tentam esconder as limitações da tecnologia que esteve na origem do projeto. Pelo contrário, assume-as. São colunas pouco sensíveis, com resposta de graves limitada e incapazes de competir em volume com muitos modelos contemporâneos.


Mas essa aparente desvantagem é compensada por uma afinação muito particular. A engenharia desenvolvida pelos técnicos da BBC procurou, através de soluções acústicas e psicoacústicas, maximizar a inteligibilidade e a naturalidade dentro de um volume extremamente reduzido.


O resultado é uma coluna que não impressiona pela dimensão ou pelas especificações, mas que pode conquistar pela forma como reproduz música.


Com construção exemplar, materiais de qualidade e uma apresentação sonora calorosa, detalhada e espacialmente generosa, as Musical Fidelity LS3/5A demonstram que nem sempre a evolução do Hi-Fi passa pelo tamanho ou especificações técnicas. Pelo que concluimos que a felicidade de um audiófilo pode estar na reprodução convincente gama média. 



As Musical Fidelity LS3/5A são colunas de duas vias, com caixa fechada, equipadas com um woofer de 11 cm e um tweeter de cúpula têxtil de 19 mm. Apresentam uma resposta em frequência de 80 Hz a 20 kHz (±3 dB), uma sensibilidade de 82,5 dB/1 W/1 m e uma impedância de 15 ohms. A marca recomenda a utilização de amplificadores com uma potência entre 20 e 150 W. Cada coluna mede 19 × 30,5 × 16,5 cm e pesa 4,9 kg. O preço ronda os 2500 euros pelo par. A representação na Península Ibérica é feita pela Sarte Audio Élite.


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