Charlie Parker e o saxofone de plástico que fez história

Fernando Marques
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Sem o seu saxofone, Charlie Parker subiu ao palco do Massey Hall, em Toronto, em 1953, com um invulgar Grafton de plástico. O resultado tornou-se lendário.


Charlie Parker entrou para a história do jazz como um dos músicos mais revolucionários, mas uma das suas atuações mais célebres começou com um problema inesperado: em maio de 1953, quando chegou ao Massey Hall, em Toronto, o saxofonista não tinha o seu instrumento.


As circunstâncias nunca ficaram totalmente esclarecidas. Segundo Dina Bennett, responsável pelas coleções do American Jazz Museum, Charlie Parker tinha penhorado o seu saxofone antes do concerto, o que obrigou a organização a encontrar-lhe um instrumento alternativo. A mesma versão é avançada pelo KCUR. Perante a urgência de encontrar uma solução, o músico acabou por tocar com um instrumento pouco convencional: um saxofone alto Grafton, fabricado em plástico.


O episódio poderia ter sido apenas uma curiosidade, mas acabou associado a uma das mais importantes gravações ao vivo da história do jazz.


Um saxofone diferente de todos os outros

O Grafton nasceu em Londres no final da década de 1940, a partir de um protótipo desenvolvido pelo fabricante de origem italiana Hector Sommaruga. A produção comercial arrancou no início dos anos 1950 e prolongou-se até 1967.


Ao contrário dos tradicionais saxofones de latão, o Grafton utilizava um corpo em acrílico moldado por injeção, de cor creme, reforçado por uma estrutura metálica. As chaves eram fabricadas em latão.



A ideia era simples: criar um saxofone mais barato e acessível a estudantes e músicos amadores. O resultado era um instrumento leve, visualmente invulgar e relativamente económico, mas também mais frágil do que os saxofones convencionais. O material plástico podia rachar e a durabilidade acabaria por ser uma das principais limitações do modelo.


Ainda assim, o Grafton tinha uma característica que naquele momento era muito mais importante: estava disponível quando Parker precisava dele.


O concerto que juntou gigantes do jazz

O concerto de 15 de maio de 1953 no Massey Hall reuniu uma formação extraordinária. Além de Charlie Parker, participaram Dizzy Gillespie no trompete, Bud Powell no piano, Charles Mingus no contrabaixo e Max Roach na bateria.


O grupo ficou conhecido como The Quintet e reuniu alguns dos nomes fundamentais do bebop, num concerto que, apesar de organizado em circunstâncias difíceis, viria a ganhar um estatuto quase mítico.


Parker, conhecido pela alcunha «Bird», não deixou que o instrumento improvisado condicionasse a sua prestação. Com o Grafton nas mãos, participou numa atuação marcada pela intensidade, velocidade e criatividade que caracterizavam o seu estilo.


O contraste entre o músico, então já uma figura central do jazz moderno, e aquele saxofone de plástico de aspeto quase futurista tornou-se parte da própria lenda do concerto.


De instrumento improvisado a peça de museu

A atuação foi gravada e posteriormente editada como Jazz at Massey Hall. O álbum tornou-se uma referência incontornável do jazz ao vivo e ajudou a preservar uma noite particularmente importante para a história do género.


O Grafton utilizado por Parker também sobreviveu. Décadas depois, o instrumento foi colocado em leilão pela Christie's, em Londres, onde acabou vendido em 1994 por 93 500 libras (108.748 €).


A peça foi adquirida pelo American Jazz Museum, em Kansas City, cidade natal de Charlie Parker, onde permanece integrada na coleção do museu.



Uma coincidência que se tornou história

O episódio do Grafton é particularmente revelador da natureza improvisada do jazz. Um problema logístico — a ausência do saxofone habitual — obrigou um dos seus maiores intérpretes a adaptar-se imediatamente às circunstâncias.


Mais de sete décadas depois, o saxofone de acrílico que poderia ter sido apenas uma curiosidade tecnológica é uma peça histórica. A sua importância não está apenas no material ou no design pouco convencional, mas no facto de ter sido o instrumento escolhido por Charlie Parker numa das noites mais célebres da história do jazz.


No Massey Hall, Parker não tocou com o saxofone que esperava levar para o palco. Tocou com o que tinha à mão. E, de forma quase paradoxal, um instrumento concebido como alternativa económica acabou por ficar associado a um dos músicos mais influentes e inovadores do século XX.

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