A alta-fidelidade feita nos Açores tem um nome: Azoric Audio

Fernando Marques
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Projeto criado no Faial transforma um hobby entre engenheiros numa marca nacional de áudio de alta-fidelidade.


A paixão pela reprodução sonora de alta qualidade e a vontade de encontrar uma solução para uma coluna avariada deram origem à Azoric Audio, uma marca açoriana de alta-fidelidade criada por Miguel Camões e José Simas, dois engenheiros e audiófilos da ilha do Faial. O primeiro modelo comercial da empresa, denominado Corvo destaca-se por combinar construção artesanal, materiais locais e uma filosofia de simplicidade acústica assente num único altifalante para reproduzir todo o espectro sonoro.


O projeto nasceu na localidade do Capelo, onde os dois fundadores desenvolveram, ao longo de vários anos, diferentes protótipos e soluções técnicas até chegarem à fórmula que hoje representa a identidade da marca. A Azoric Audio apresenta atualmente uma gama composta pelas monitoras Corvo, pelas colunas de chão Pico e Fayal, pela coluna central Topo para sistemas audiovisuais e pelas mais recentes Capelo.


Madeira açoriana e engenharia acústica

Uma das características distintivas das colunas Azoric Audio é a utilização de madeira de criptoméria-japónica (Cryptomeria japonica), espécie amplamente presente nas florestas dos Açores e tradicionalmente utilizada na construção e marcenaria da região. Além de reforçar a ligação ao território, a escolha do material confere às colunas um caráter próprio e sustentável.


Protótipo das Corvo


As Corvo recorrem a um altifalante Dayton Audio de 3,5 polegadas e 8 Ω de impedância, escolhido após inúmeros testes realizados pelos dois sócios. Apesar do seu custo relativamente acessível, os responsáveis pela marca garantem que foi a unidade que apresentou o melhor desempenho global entre todas as opções experimentadas.


Para reforçar a resposta nos graves, o interior da coluna integra um sistema de labirinto acústico com uma porta traseira. Na versão final de produção foram ainda introduzidas melhorias estruturais, incluindo uma base mais robusta e a incorporação de uma placa de pedra vulcânica no interior da caixa, destinada a aumentar a estabilidade e a reduzir vibrações indesejadas.


Uma pequena monitora com prestações surpreendentes

Com 45 centímetros de altura, 24 centímetros de profundidade e apenas 14,5 centímetros de largura, as Corvo apresentam uma silhueta estreita e elegante. O reduzido peso, consequência da baixa densidade da criptoméria, torna-as particularmente fáceis de posicionar, embora também exija cuidados acrescidos para evitar quedas.




A resposta em frequência anunciada estende-se dos 60 aos 20.000 Hz. Para utilização em nearfield, a Azoric recomenda amplificação a partir de 10 watts. A volumetria da caixa e as dimensões do altifalante traduzem-se numa sensibilidade de 85 dB e, graças a uma impedância relativamente estável, não deverá ser difícil encontrar amplificação adequada para as colocar a tocar.


A primeira impressão surgiu logo nos primeiros acordes de “Chan Chan”, do álbum Buena Vista Social Club. O que mais se destacou foi a surpreendente extensão dos graves, particularmente quando comparada com o protótipo que tínhamos escutado anteriormente. Questionado sobre as diferenças entre a versão de produção e o modelo inicial, José Simas, um dos responsáveis pelo projeto, explicou que a arquitetura acústica se manteve praticamente inalterada. Segundo o fundador da Azoric Audio, o sistema de labirinto destinado ao reforço dos graves já estava presente no protótipo e o altifalante continua a ser o mesmo Dayton Audio de 3,5 polegadas. As principais alterações incidiram na construção da caixa, que passou a contar com uma base em madeira mais espessa e com a integração de uma placa de pedra vulcânica no interior, soluções que permitiram aumentar o peso da coluna e melhorar a sua estabilidade.



A par da surpreendente profundidade dos graves, as Corvo revelam uma gama média equilibrada e expressiva, livre do efeito de projeção excessiva — frequentemente descrito como “som de megafone” — que tende a afetar soluções desta natureza. Também a extensão dos agudos merece destaque. Acreditamos que parte deste desempenho se deve ao phase plug metálico colocado no centro do altifalante, responsável por melhorar a dispersão das altas frequências.


Esta característica tornou-se particularmente evidente em várias audições. Na voz de Melody Gardot, em Worrisome Heart, sobressaiu toda a sua vulnerabilidade emocional e riqueza tímbrica. Já em Satie: Gymnopédies | Gnossiennes, do trio de Jacques Loussier, emergiu uma sonoridade elegante, serena e introspectiva, que valoriza a sensibilidade improvisatória do jazz sem perder a delicadeza das composições de Satie.


Concebidas para audição de proximidade

Tal como a Azoric recomenda no seu site, utilizámos as Corvo numa configuração nearfield, posicionadas próximo da parede traseira, numa sala com cerca de 15 m². Ficámos convencidos de que é precisamente nestas condições que estas colunas atingem o seu melhor desempenho, oferecendo uma apresentação sonora coesa, envolvente e particularmente equilibrada.



Entre os amplificadores utilizados durante o teste, a sinergia mais evidente surgiu com o Naim Nait 50. Apesar dos modestos 25 watts por canal, este amplificador, produzido numa edição limitada de 1973 unidades para assinalar o 50.º aniversário da marca britânica, revelou-se um parceiro ideal. A versão atual preserva a musicalidade que tornou o modelo original uma referência, beneficiando simultaneamente de um ligeiro aumento de potência que reforça a sua versatilidade.


Nem todos os géneros musicais beneficiam da mesma forma

Embora as Corvo tenham impressionado pela coerência tímbrica e refinamento, as suas características técnicas tornam-nas mais adequadas para determinados estilos musicais. Jazz, música vocal, clássica, folk e gravações acústicas beneficiam particularmente das suas qualidades, enquanto géneros mais exigentes em impacto e pressão sonora, como música eletrónica, hard rock ou metal, poderão não explorar da melhor forma as suas capacidades.



Produção artesanal portuguesa

Num mercado dominado por grandes fabricantes internacionais, a Azoric Audio representa um raro exemplo de produção artesanal portuguesa de alta-fidelidade. A empresa aposta numa abordagem de pequena escala, valorizando a construção manual, os materiais locais e uma filosofia de design centrada na simplicidade e na fidelidade sonora.


As colunas Azoric Audio Corvo podem ser encomendadas diretamente através da marca por 1.450 euros, valor que inclui o envio para todo o território nacional.

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