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M&S Há Vinte AnosEntrevistas |
Desta vez a nossa memória leva-nos às duas últimas edições de M&S de 1981. Pois é, já lá vão vinte anos. Referimo-nos às edições nºs 67 (Outubro) e 68 (número duplo: Novembro/Dezembro). E isto porque bem vistas as coisas em cada um destes números encontramos matéria mais que suficiente para arregalar os olhos de espanto. Especialmente tendo em conta as dificuldades da época no respeitante a conteúdos, de que as entrevistas com nomes famosos eram uma raridade. Reparem: na edição de Outubro a nossa revista publicava entrevistas com Caetano Veloso, Ian Dury, Wilko Johnson, Sting, Martin Turner, Trovante e Siouxsie and the Banshees. Um festival. Mas, o “Especial Natal” que se seguiu, não lhe ficava atrás. Em matéria de entrevistas, vejam só: Staff, Gilberto Gil, Thin Lizzy, Rory Gallagher, Paulo de Carvalho, Júlio Pereira e Vitamina Rock. Com isto queremos dizer que M&S era, então, uma revista de música a que não faltavam motivos para ombrear com o que de melhor se publicava por esse mundo fora e, em particular, na Europa, passe a imodéstia. Para que o cibernauta fique com uma ideia, tanto quanto possível aproximada, do que então se escrevia na M&S resolvemos fazer nesta edição uma viagem pelas entrevistas da edição nº 67, seleccionando de cada uma delas apenas uma pergunta e uma resposta, por forma a tornar mais ameno este encontro com o passado. Na próxima edição, procuraremos apresentar a mesma receita tendo em conta as entrevistas da edição de Natal. Enfim, para já eis alguns significativos exemplos.
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Caetano Veloso - Entrevista de Trindade Santos:
- Acreditas na harmonia das coisas?
- Às vezes eu acredito, às vezes não. Acredito no caos das coisas. Às vezes eu estou caótico e feliz, às vezes eu estou caótico e infeliz. Às vezes eu estou harmónico e infeliz, às vezes eu estou harmónico e feliz. Tudo pode. Pinta de tudo na cabeça humana. Como diz o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração”.
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Wilko Johnson - Entrevista de Pedro Ferreira:
- Mudando de assunto: já participaste em algum espectáculo ecológico?
- Não, mas tenho os ecologistas em boa conta. Estamos a destruir coisas importantes e é preciso arranjar alternativas. Embora não participe directamente, fico satisfeito por haver pessoas que fazem essas coisas de ecologias. Mas penso também que as respostas aos problemas passam por mudanças mais radicais , por mudanças políticas... o que não quer dizer que devemos ficar à espera dessas mudanças! É bom que se proponham já alternativas sérias ecológicas, que se faça qualquer coisa...
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Sting (Police) - Entrevista de Ray Bonici:
- As melodias que escreveste tornaram-se muito populares. Mas, na tua opinião, já escreveste "a canção"?
- Não. Espero que não porque de contrário a minha carreira já teria terminado e eu levo-a muito a sério. Já escrevi canções das quais me orgulho como por exemplo “Roxanne”, talvez por ela nos ter lançado, “Message in a Bottle”, porque foi o nosso primeiro Number One e “Walking on the Moon” porque foi o nosso segundo Number One. E ”Born in the Fifties” porque engloba uma série de ideias que tem muito a ver com a minha formação... com a minha adolescência. Existem outras canções das quais não gosto, mas não creio ter escrito “a canção”. Claro que não me cabe a mim julgar, isto é apenas uma espécie de apreciação retrospectiva, como quando se fala de uma pessoa que já morreu. Pode falar-se de Beethoven e da sua 9ª Sinfonia como sendo a sua grande obra. Por acaso até foi a última que ele escreveu. Mas isso não é coisa que me dê muitas preocupações.
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Siouxsie (Siouxsie and the Banshees) - Entrevista de Jean-Michel Dupont e Júlio Ferreira Antunes:
- O que é que pensas dos velhos punks que continuam a cuspir nos músicos e a dançar o pogo nos concertos?
- É uma coisa que me enerva. Detesto todos os uniformes. Para mais o punk ao princípio não tinha nada a ver com isso. Eles alinham no jogo dos “medias” que sempre os mostraram como pessoas patibulares. Não tenho nada a ver com eles...
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Trovante - Entrevista de Ana Rocha e Carlos Marinho Falcão:
- Qual é o objectivo dos Trovante?
- (João Gil): É o de pesquisar a partir de um som que já encontrámos, com um pé em Portugal, e partirmos para outras experiências, aceitando as influências várias... a música negra... o jazz... Eu não estou isolado do que me rodeia. Chego a casa e ligo o rádio. Como todos os elementos dos TROVANTE são jovens, todos executamos a música que a malta nova escuta no momento.
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Ian Dury - Entrevista de Pedro Ferreira (dada a originalidade e o bom humor com que o autor iniciou a entrevista, em vez de escolhermos uma pergunta e uma resposta, resolvemos, excepcionalmente, reproduzir na totalidade o Capítulo I, intitulado “Conversa animalesca”):
M&S - ÃO!ÃO! Ian Dury - Perdão?! M&S - Prefere que eu diga miau? Ian Dury - é-me indiferente. M&S - Não gosta de gatos? Ian Dury - Já tive uns, mas não podia andar de um lado para outro com eles, de modo que os deitei fora. M&S - Não me diga que prefere cães... Ian Dury - Desde que não vão aos concertos, estou-me nas tintas.
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Crítica |
A crítica de discos da Música & Som sempre foi uma secção especialmente apreciada pelos leitores. Há vinte anos atrás era uma das referências da revista. Nela se fazia mensalmente a análise exaustiva de um disco – o chamado “Banco de Ensaio” – seguindo-se-lhe algumas páginas com críticas mais sucintas de algumas das principais novidades lançadas no mercado discográfico nacional. Com independência e isenção – única forma de qualquer publicação se impor, tornando credível a crítica perante o leitor -, uma equipa de jovens e talentosos críticos punham em relevo as debilidades e as qualidades dos trabalhos que lhes chegavam às mãos (e aos ouvidos). Em resumo: a crítica de M&S era respeitada e seguida com o maior interesse pelos leitores. O que não quer dizer que, de vez em quando, não houvesse alguns “desaguisados” a animar as hostes... E, ainda bem. Se assim não fosse para que serviria ter opinião?... Bom, mas voltemos à secção de crítica da M&S de há vinte anos (edição nº 67 de Outubro de 1981) e à apreciação que Miguel Esteves Cardoso fez do disco “Come An´Get It” do grupo Whitesnake. Eis como ele “despachou” o referido disco para o departamento das inutilidades:
“Acredito que dentro da subespécie do “heavy-metal” haja bandas piores que outras. Os Whitesnake não são piores que outras bandas. São piores que todas. No dia do meu casamento, querendo à força apanhar um dos poucos Resnais uq eparam em Londres, tive de chupar com um documentário dos Whitesnake em complemento. Disso nunca os perdoarei. A data do nosso primeiro casamento deveria ser uma memória feliz. Não deveria incluir a recordação azeda de ver David Coverdale a agitar a cabeleira em estilo de anúncio Sunsilk para presidiários. Os sonhos não são feitos disso. “Come and Get it”, sendo o mais recente LP dos Whitesnake, é cinco vezes pior que os seus singles, porque tem cinco vezes mais canções (emprego “canções” num sentido tão lato que até faz mal pensar) e dura cinco vezes mais tempo. As letras insultariam a dignidade humana, caso fossem um pouco mais bem escritas – sendo assim, limitam-se a insultar a inteligência. Caso haja alguma dúvida da parte do ouvinte, os energúmenos publicaram as letras (emprego “letras” com o maior desaforo) na capa interior, sem dúvida para chamar a atenção do júri para o Nobel da poesia. Quanto à “música”, nem com a maior liberdade de expressão se pode empregar a palavra. A evitar como o escorbuto.”
Reparem: a evitar como o escorbuto. Ou, se preferirem e actualizando a frase para dias de hoje, “a evitar como o carbúnculo”. O que significa que já há vinte anos algo de “terrífico” minava a música...
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