O exemplar nº 83 da Música & Som, de Agosto de 1983, reproduzia na capa uma excelente imagem de STING, líder dos Police, então na berra um pouco por todo o lado e, em especial, no nosso país. A entrevista que então publicámos foi feita pelo director da conceituada revista norte-americana “Musician”. Um exclusivo de “M&S” que revelou ao público português uma conversa do maior interesse com o artista, hoje relembrado no momento particularmente feliz da sua carreira em que se faz o lançamento no mercado mundial da sua última obra, “Sacred Love” – álbum excepcionalmente bem concebido e a confirmar, uma vez mais, o talento e pujança criativa do músico fora-de-série que ele é.
Logo a iniciar a entrevista, Garbarini escreve: “Andy Summers, Robert Fripp e eu estávamos a assistir a um filme policial inglês maçador e absurdo quando Sting (cujo nome verdadeiro é Gordon Summers) chegou: mal vestido e com a barba por fazer, usando a sua gabardina tipo Hunphrey Bogart”. E o jornalista, que intitulou a entrevista de “O Inverno do leão”, prossegue o preâmbulo da entrevista definindo em traços fortes a personalidade ímpar do seu entrevistado e a música do grupo a que pertenceu. Depois, passando ao ataque, lança a Sting a primeira pergunta e a primeira provocação ao referir que muitas pessoas o acham “um pouco arrogante”, embora pressinta – acrescenta - “que há em si, lá muito no fundo, por detrás de toda essa pose, uma certa humildade”.
Comentário de Sting: “A única coisa que posso dizer é que existem apenas três ou quatro pessoas em todo o mundo que me conhecem verdadeiramente. Qualquer comentário de outras pessoas acerca da minha possível humildade ou arrogância é irrelevante, porque não me conhecem e nunca me conhecerão. Agora, respondendo concretamente à sua pergunta, posso dizer que sim, que sou um pouco arrogante”.
Mais adiante, Garbarini elege a política como tema de uma pergunta e Sting confessa: “Não acredito que a política consiga ser agente transformador da sociedade. Prefiro a política como comportamento individual. Se realmente as coisas mudarem, precisamos de nos realizarmos como indivíduos e não sermos controlados por um outro sistema qualquer”.
Qual o antídoto de Sting para combater a saturação, ou seja, para que a criatividade regresse ao trabalho de compor – quis saber Garbarini. Sting revela: “O que eu faço, quando me sinto saturado, o que acontece muitas vezes, é voltar atrás e exercitar-me. Já conheço os altos e baixos da minha criatividade e isso é muito importante para mim, pois afasta-me da paranóia de estar sem escrever, de não ser sempre criativo”.
Se tivesse que indicar uma só canção, que contivesse toda a essência dos Police, qual a que Sting escolheria, perguntou-lhe o director da “Musician”. A resposta, como se adivinha, não podia ter sido outra: “Roxanne”, sem dúvida. Foi uma verdaeira bomba quando começou a ser transmitida na rádio porque não havia nada semelhante. E porquê? Porque era extremamente simples. A instrumentação é básica, mas melódica e harmonicamente é muito sofisticada”.
Finalmente, Garbarini, a terminar a extensa e interessante entrevista com STING, em que se falou dos Police e do então recém-editado álbum “Synchronicity”, perguntou-lhe se se sentia optimista acerca do futuro ou, pelo contrário, o “Ghost” será destruído pela máquina? Sting confessa: “Sim, sinto-me confiante e penso que hoje, mais do que nunca, o “Ghost” pode encarar a “machine” de uma maneira diferente. A ciência está a afastar-se das visões mecanizadas do mundo, da física de Newton e Darwin, da casualidade...”. E mais adiante: “Acho que a nossa salvação está algures nas pequenas moléculas que existem para lá do espaço e do tempo. Não quero dizer com isto que o futuro venha a ser material, será pelo contrário espiritual... Estamos a descobrir que o Universo não é sustentado pelos sólidos e minúsculos átomos, porque os átomos e os espaços existentes entre eles estão, por sua vez, cheios de partículas não sólidas. Estão cheios de Magia”.
Everyone I know is lonely
God` So far way
My heart belongs to no one
So sometimes I pray
Take the space between us
Fill it up someway…
“Oh My God” – Sting, 1983
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