A capa do exemplar nº 84 da Música & Som - Setembro de 1983 - era dedicada a Robert Palmer, então no auge da sua carreira. Vinte anos depois, ou seja em 26 de Setembro deste ano, somos surpreendidos pela sua trágica morte de ataque cardíaco, em Paris, aos 54 anos de idade. Vamos recordá-lo aqui, através das palavras que confiou ao nosso correspondente em Inglaterra, o jornalista Ray Bonici. Em Portugal era lançado, nessa ocasião o seu álbum “Pride”, que Pedro Tomás comentou na secção de crítica da nossa revista (edição nº 83) colocando em relevo os seus trabalhos anteriores com Gary Numan e “as suas referências mais ou menos profundas a correntes como o funky, reggae ou new wave”.
Na entrevista, que hoje recordamos, publicada há vinte anos pela “M&S”, Ray Bonici considera-o “um trovador moderno de características únicas, com um carimbo tão particular nas suas “rock ballads”, marca que lhe confere um charme propício a acessibilidade directa”. Recorda os seu primeiros passos no final dos anos sessenta, em que integrou o grupo Dada, mais tarde transformado nos Vinegar Joe. A sua carreira a solo teve início com o álbum “Sneakin´Sally Through the Alley”. “Muito influenciado, no final da década de setenta pela vaga do rock electrónico, Robert Palmer – escreve Ray Bonici – colaborou então com Gary Numan e, desta colaboração, resultaram os álbuns “Secrets” e “Clues””. Em “Pride”, de que já falámos anteriormente, destaca-se a colaboração do solista Rupert Hine ainda o estilo “Soulful” que, como afirma Bonici, “tem sido uma constante ao longo da obra do músico”.
A entrevista teve como tema, naturalmente, a edição de “Pride”. Mas, Bonici conduz Robert Palmer para outros terrenos. Um deles, devido a um certo descontentamento do artista para com os músicos em geral. Palmer confirma: “Aconteceu que, quando pela primeira vez tentei desenvolver o meu próprio estilo de criar sons, discos, os músicos não atinaram lá muito bem. Agora, eu próprio gravo as bases de uma canção em estúdio e depois é que chamo os músicos para fazerem o resto... Têm toda a liberdade para tocar, em vez de tentarem agradar-me ou pensar o que é aquilo. Tudo está esboçado e assim é mais excitante para mim”.
Ray Bonici quis saber de Palmer, entre outras coisas, o que é que lhe dava mais gozo na sua música, de que é que mais se orgulhava no seu trabalho. Robert Palmer afirmou: “A minha grande batalha é no sentido de derrotar o orgulho. Muita da minha energia é gasta em descobrir em que é que reside esse orgulho e em tentar destruí-lo. Existe uma coisa de que me orgulho particularmente: a minha energia, a minha perseverança. Quanto ao resto não existem em nós muitas qualidades das quais nos possamos orgulhar, especialmente no que diz respeito à nossa obra”.
Ray Bonici confessa a Palmer que sempre pensou que ele era “uma pessoa muito emotiva” pelo que o incluiu no grupo da soul, tal como a Winwood, por exemplo. Palmer responde: “Se isso for verdade, e até pode ser que o seja, então a minha música é o resultado dessa emoção. Tal como uma mulher sexy não precisa de ter atitudes sexy porque ela é sexy”.
Ainda com o tema da emoção em fundo, Bonici quis saber se para Palmer era difícil ser emotivo e, ao mesmo tempo, experimental. O artista afirmou: “Estas fases tendem a ser compartimentadas em todo o processo. A ideia inicial de uma canção pode ter germinado em mim ao longo de um ano. Depois oiço todo o material que reuni e que foi composto ao acaso e crio o tal estado de espírito. Aqui o intelecto não é envolvido. Tocar e cantar é apenas emocional. Na fase de eliminação constato que posso alargar certas ideias contidas nas canções. Aqui já é necessário outro tipo de concentração. O que é preciso é coordenar as diversas fases e não perder a ideia inicial, pois ela tem de chegar ao vinil o menos danificada possível”.
O que mais interessava Palmer para além da música e do espectáculo? Eis a resposta então dada a Bonici: “Estou muito envolvido com a minha profissão e adoro-a. Mas, para além disso, gosto de ler e de me sentir eu próprio distraído ouvindo música de outras pessoas...”.
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