OPINIÃO

 

 


Rep_Supertramp Barcelona-2 …Um Espectáculo

 

Foi assim que o António Sérgio intitulou a crónica que escreveu para a Música & Som nº 17 sobre o concerto dos Supertramp a que assistimos em Barcelona nos idos anos de 1977. Todos estávamos, então, no início de vida (e de sonhos por concretizar) e o António era um dos assíduos colaboradores da M&S com uma secção denominada “BAZAR”, onde ele deixou escrito muito do que então se desconhecia sobre o “Punk” e algumas outras novidades de música que por cá não chegavam com facilidade ou eram entendidas como inúteis e despropositadas por alguns.

O concerto dos Supertramp em Espanha foi a surpresa e a oportunidade para ouvir ao vivo um grupo de reconhecido mérito internacional. O que, naquela época, era uma dádiva que não acontecia com facilidade. Daí a curiosidade suscitada junto de 25 sortudos portugueses – entre os quais eu e António Sérgio nos contávamos – e que o António, com o seu talento de cronista exemplar, nos transmitiu com toda a verdade e fulgor. A sua opinião é importante: pela relevância do espectáculo e pelas palavras correctas da análise feita. Nelas encontramos o sentido exacto do espectáculo e da música que António tanto prezava e fazia questão de transmitir aos seus ouvintes da Rádio.

Esta é, também, uma forma de homenagear o seu trabalho, o seu talento e o seu bom gosto. Agora que, infelizmente, e com a grande mágoa, já não podemos contar com a sua maravilhosa voz e as suas escolhas musicais. Recordamo-lo, portanto, como ele bem merece, ou seja, com as suas palavras de apreço pelos belos momentos que os Supertramp nos proporcionaram no seu concerto no Palácio Municipal Desportivo de Barcelona, em 1977. (A.D.R.)

A noite de Barcelona e a gente daquela terra de promessa pareciam muito mas muito os loucos portugueses perante um dos poucos concertos que de largo em largo tempo nos é “oferecido”. Era incrível o entusiasmo que a malta mostrava pelo concerto dos Supertramp, o 1º em Espanha do grupo e que Roger Hodgson declarara ser dos mais importantes para a banda, de todos os da exaustiva e longa tournée. O de Barcelona seria o 92º show, e se os Tramp tinham muitas razões para estarem cansados nada disso transpareceu durante duas horas e vinte de música, de vivacidade esfusiante, de muita luz e emoção, de momentos de autêntica, frenética e eléctrica comunhão dos que falam a mesma linguagem da simplicidade e do calor.

Os músicos surpreenderam-nos muito e favoravelmente. Ali estiveram para passar um bom bocado e foi esse feeling inicial que lhes daria o esmagador êxito final. Que poderemos salientar daquela noite inesquecível? O belo sol a nascer num filme de terrível impacto, a sombra mística dos braços abertos de Roger, os acordes de harmónica (School) que abriram o show? Ou dizer que John Helliwell é um perfeito entertainer, um incrível soprador e teclista ou um humorista de grande craveira? Dizer que os Supertramp se tornam cada vez mais multi-instrumestistas, que se dobram continuamente nos teclados e que Roger está cada vez mais um pianista de gosto?!

Lembrar a potente e desvairada voz de Rick Davis ou o seu modo pouco delicado de bater o piano. Ouvir o devastador jogo de movimentos que Bob Benberg aplica nas peles e pratos. Passear no palco com o vaudeville-baixista Dougie Thompson. Aquilatar da certeza com que os efeitos sonoros e visuais são agora usados no espectáculo do grupo?! Ou pura e simplesmente lembrarmo-nos que ouvimos e vimos música ligeira posta em palco do modo mais esfusiante que se poderia imaginar? Pensamos que há melhor que tudo isto: a meio do show, John anunciaria que a canção seguinte “Hide in your shell” era dedicada aos portugueses que ali se tinham deslocado para verem os Supertramp. E mais, prometeram ali mesmo que 78 não passaria sem que tocassem num palco português.

Supertramp ao vivo foram e são um espectáculo.

Cheio.

 

    António Sérgio

 

 


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