A capa foi ilustrada com uma sugestiva imagem de Carly Simon. Refere-se ao exemplar nº 85 da Música & Som de Outubro/Novembro de 1983. Há 20 anos, precisamente. Mas, além da bela Carly Simon a nossa revista dedicava o seu conteúdo a muitos outros nomes famosos, desde o grupo Fleetwood Mac até ao portuguesíssimo e genial Carlos Paredes, de que na altura se editou o álbum Concerto em Frankfurt. Oportunidade que Rui Monteiro aproveitou (e nós também) para falar desse autêntico mago da guitarra portuguesa, então em plena pujança. Sobre o título Guitarra da vida, Rui começa por escrever: Soa quase sempre angustiada a guitarra de Carlos Paredes quando sobre ela se debruça com os cuidados de um amante em percalços apaixonados: e quando se vê na rua, com o seu fato coçado, a camisa de colarinho um pouco esfiapado, saco de plástico ou pasta consumida pelos anos, carregado de jornais e papeis avulso, andar de adolescente em crescimento a cumprimentar pessoas de que nem sequer recorda o nome ou o local onde as conheceu, ao vê-lo na rua, dizia, não se reconhece a alma do homem que do cimo de um palco se debruça tangendo.
Eis alguns extractos das palavras de Carlos Paredes reproduzidas por Rui Monteiro no texto publicado pela Música & Som:
Carlos Paredes e os ritmos: Os ritmos são ditados pela vida. É evidente que o ritmo do homem urbano é o trânsito, as formas da vida, às vezes a imposição de certa música ou filme. É um ritmo em grande parte ditado por uma máquina e, muito justamente, a música ligeira assimila esse ritmo, não pode é ter a pretensão de dar-nos os ritmos africanos, pois esses são ditados pelas necessidades do homem e não da máquina.
Carlos Paredes e a falta de condições de trabalho: Durante anos fiz muitos espectáculos, sem receber remuneração, em circunstâncias técnicas bastante difíceis: más aparelhagens, salas sem condições acústicas, e, muitas vezes, ao ar livre, que me deixavam uma sensação desagradável, pouco estimulante para quem quer fazer um disco nas melhores condições de sonoridade.
Carlos Paredes e a profissionalização: Não há condições para ser executante de guitarra portuguesa a tempo inteiro, a não ser em casas de fado. Ser um guitarrista de fado exige uma grande especialização, a minha aprendizagem com as guitarra refere-se a outro tipo de especialização. Não existem condições para a profissionalização de um guitarrista do meu género.
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